
Em “Notes on Camp”, ensaio publicado em 1964, Susan Sontag descreveu o camp como uma sensibilidade ligada ao artifício, à teatralidade, ao excessivamente estilizado e a tudo aquilo que parece ser “demais”. Como cearense de Fortaleza, arrisco dizer que existe algo que poderíamos chamar de camp cearense. Lá, essa sensibilidade se aproxima da criatividade popular, longe da aristocracia europeia e do glamour hollywoodiano que compuseram o repertório analisado pela autora.
O camp cearense nasce da molecagem, do humor de Luís Costa como Aurineide Camurupim e de Paulo Diógenes como Raimundinha. Está no melodrama televisivo de programas como “Nas Garras da Patrulha” e na personalidade de Rochele Santrelly em “Glitter: Em Busca de um Sonho”, eternizando frases como “Vai ser choque de monstro, meu amor!”. Também está nas periferias, onde moda, música e outras expressões artísticas se alimentam mutuamente, formando uma cena marcada pelo exagero. Essas referências permitem pensar o Ceará como um dos lugares onde o camp ganhou uma tradução própria e profundamente popular.
Diferente da Europa e dos Estados Unidos, que preservam uma certa distância intelectual em relação à ironia camp, no Ceará, a irreverência ocupa um lugar histórico na cultura do estado. O humor cearense raramente busca a neutralidade e prefere a risada escrachada, os figurinos caricaturais e os personagens maiores do que a vida.
As histórias crescem quando são contadas nas calçadas, acompanhadas por mãos, bocas e atitudes que aumentam cada detalhe. Nas quadrilhas juninas estilizadas, essa inclinação pelo exagero ganha escala monumental. Vestidos volumosos, brilho, maquiagem elaborada, cenografias grandiosas e narrativas românticas transformam os festejos de junho e julho em experiências visuais intensas. Cada elemento é ampliado até participar da dramaturgia da apresentação. A gambiarra também ocupa um lugar importante nessa leitura do camp cearense.
Enquanto o camp clássico costuma encontrar no luxo matéria para o espetáculo, no Ceará, a fantasia também pode surgir da escassez. A história do estado foi atravessada pelas secas, pela pobreza e pela falta de recursos – condições que fizeram do improviso uma necessidade cotidiana, uma vez que criar grandeza com pouco exige inventividade.. O artista plástico contemporâneo, Sérgio Gurgel, por exemplo, trabalha diretamente com essa potência visual. Natural de Acopiara, ele incorpora o excesso tanto em sua apresentação pessoal, marcada por volumes monumentais no cabelo, maquiagem carregada e roupas dramáticas quanto pela sua produção que fala aborda temas como passagem do tempo e religião por meio de objetos descartados. Materiais, texturas e detalhes se acumulam, devolvendo presença e memória àquilo que havia perdido sua função.
A cultura popular nordestina mostra que o excesso também exige rigor, inteligência visual e controle da imagem. Exagerar pode envolver uma escolha precisa de escala, ritmo e composição. Outro exemplo é a dupla Silvero Pereira e Falcão, que transita entre teatro, moda, música, performance e cultura popular sem separar rigidamente essas linguagens. Em seus trabalhos, figurino, corpo, voz e personagem se desenvolvem em conjunto. Os corpos dissidentes também ocupam um lugar central nessa perspectiva.
A cultura LGBTQIA+ construiu relações históricas com performance, espetáculo, fantasia e produção de imagens que desafiam os limites impostos às identidades. Nos trabalhos de Bárbara Banida e de M. Dias Preto, o exagero visual abre espaço para outras formas de existência. Pinturas, fotografias, colagens, esculturas e performances abordam gênero, sexualidade, corpo, infância e pertencimento. Aquilo que escapa à norma deixa de ocupar as margens e assume o centro da imagem.
O Ceará amplia o debate contemporâneo sobre o camp ao apresentar referências que não estavam no horizonte original do conceito. Ele muda de sotaque, de matéria e de escala. O exagero pode ser escolha estética, humor, memória e afirmação de identidade. E pode nascer de roupa, de piada, objeto descartado ou fantasia construída com o que havia à mão. É nesse repertório que ele encontra sua forma de existir.






