Como os Chavosos transformaram corte, roupa e periferia em linguagem
Entre barbearias, fotografia e direção de estilo, a plataforma criada por Jeff transforma corte, roupa e periferia em linguagem visual, sem reduzir a quebrada a uma tendência. | Por Gabriel Fusari
Antes de entrar na moda, talvez seja preciso olhar para uma cadeira de barbearia. É ali, diante do espelho, que muita coisa começa: o corte, a postura, a roupa escolhida para sair dali, a foto que registra o antes e o depois, o jeito como um menino passa a se enxergar. Para os Chavosos, plataforma criativa fundada em 2018 por Jeff e Wesley Fernandes, esse território nunca foi só um lugar de passagem, mas também ponto de partida.
Hoje, o projeto se organiza a partir de três pilares: arte, cultura e juventude. “Nosso principal objetivo não é apenas a popularização dos cortes, penteados e expressões da cultura de quebrada, mas também a ressignificação dessas manifestações por uma perspectiva positiva”, diz Jeff, fotógrafo, diretor criativo e produtor executivo da plataforma.
O coletivo começou pequeno, quando Jeff ainda construía sua trajetória na fotografia. Oito anos depois, reúne dois fotógrafos, cinco barbeiros de diferentes cidades da região e Matheus Alves, diretor de estilo. A estrutura cresceu, mas a lógica segue próxima da origem: olhar para quem cria linguagem todos os dias, muitas vezes longe dos espaços tradicionais de legitimação.
Ser chavoso, para Jeff, não se limita ao impacto visual. “Ser chave vai além de ostentar um estilo. Trata-se também de refletir sobre as motivações e os significados por trás de cada escolha estética”, afirma. A frase ajuda a entender por que o projeto atravessa fotografia, moda, publicidade, cultura institucional e arte contemporânea sem perder o vínculo com a rua.
Um dos trabalhos recentes dos Chavosos integra a quarta edição de “Frestas”, Trienal de Artes realizada no Sesc Sorocaba. No espaço expositivo, o grupo criou uma barbearia em funcionamento, acompanhada por uma série de 12 fotografias que revisitam parte de sua trajetória. A operação desloca o barbeiro para o centro da discussão artística, não como personagem observado, mas como agente criativo. A barbearia aparece como ateliê, ponto de encontro e espaço de produção visual
A relação com a moda entra por esse mesmo caminho. Para Matheus Alves, diretor de estilo, a moda sempre esteve presente na construção dos Chavosos porque nasce de lugares onde estética e identidade fazem parte do cotidiano. “A moda que nos interessa não nasce das passarelas, mas das ruas, das quebradas, dos salões, dos bailes e dos espaços onde as pessoas criam sua própria forma de existir”, diz.
Essa leitura impede uma armadilha comum: tratar a periferia como uma imagem única. Jeff lembra que não faz sentido falar de uma só moda periférica em um país de dimensões continentais. Até um degradê, diz ele, pode ser executado, interpretado e valorizado de formas diferentes conforme o território. O que une essas linguagens não é uma fórmula visual, mas a capacidade de criar, adaptar e ressignificar referências.
Também por isso, a plataforma se posiciona com cuidado diante do mercado. Existe, sim, o risco de transformar periferia em produto. Jeff não foge dessa conversa. “Para nós, a questão central nunca foi evitar o mercado ou o trabalho. O desafio está em como fazemos isso.” A resposta passa por tempo, consciência e escolha das narrativas às quais o grupo aceita se associar.
Matheus resume a roupa dentro desse processo como uma ferramenta de afirmação. Durante muito tempo, diz ele, a imagem da população periférica foi construída por outras pessoas. Vestir-se passa a ser uma forma de reivindicar essa narrativa, comunicar sonhos, origens e vínculos com a comunidade. “A periferia não apenas consome moda, mas produz linguagem, comportamento e futuro.”
Quando Jeff olha para a trajetória dos Chavosos, o que ainda o surpreende não é apenas o reconhecimento. É a possibilidade de ter vivido sonhos que, em algum momento, nem pareciam disponíveis. “Cresci em uma família que não me ensinou muito a sonhar ou a imaginar grandes possibilidades para o futuro”, conta. A plataforma abriu esse campo de imaginação. No caso dos Chavosos, estilo não aparece como superfície. Ele nasce no corte, na roupa, no gesto, na amizade entre os integrantes e na decisão de registrar uma cultura por dentro. A régua é estética, mas também é política.










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